Não foi uma, e sim, duas vezes que o termo "morador de rua" apareceu, HOJE, no meu dia. Então relembrando alguns estudos e pesquisas de um passado não muito distante, em que o termo era o que movia leituras, reflexões, deixo um pouco do que consegui compreender e sintetizar.
Situação
de Rua
Ao ver uma pessoa com roupas rasgadas ou desgastadas, com sapatos/sandálias/chinelos gastos ou até mesmo sem eles, com uma fisionomia abatida, cansada, perambulando nas ruas com sacolas de pano ou de plástico, procurando algum lugar no centro urbano para alojar-se temporariamente, poucos vão olhar este cidadão ou cidadã de uma forma mais séria, questionando o problema social em que vivem e por que não são inseridos na sociedade como cidadãos ou cidadãs e sim excluídos como ‘moradores de rua’, ‘mendigos’, ‘sem-tetos’, ‘desabrigados’, dentre outras nominações.
Grande
parte dessas ‘indiferenças’ e até uma visão naturalizada destes cidadãos e
cidadãs que vivem em situação de rua está ligada ao modo como a sociedade
brasileira se organizou, por meio de um processo concentrador de rendas e das
desigualdades sociais. Diante destes aspectos, GiorgettI (2007, p. 21)
complementa que
Não se pode negar que
a história do Brasil, marcada pela desigualdade social, tem na sua essência o
confronto de classes e de hábitos, que se produziu no imaginário social por
meio da dicotomia dominantes e dominados. Assim, a classe superior, bem educada
e, sobretudo, com hábitos de higiene fortemente implantados em seu quotidiano,
viu-se historicamente incumbida da tarefa de organizar as classes mais
populares, vítimas da ignorância e da insalubridade
O avanço tecnológico
provocou mudanças nas sociedades contemporâneas e nos processos
produtivos do mundo do trabalho, a mão-de-obra laboral se tornou exigente,
especializada, tendo em vista as necessidades e lógica do mercado. As
conseqüências destes avanços são várias, dentre elas a desigualdade social-econômica,
pois, com a perspectiva da globalização tem-se gerado um grande segmento de
trabalhadores que não conseguiram acompanhar as mudanças no mercado de
trabalho. Costa (2005, p. 2) ao citar Bauman (1997, p. 49-52) coloca que “sem
emprego, há pouco espaço para a vida vivida como projeto, para planejamento de
longo prazo e esperanças de longo alcance.”, a redução da oportunidade de
emprego ocasiona a insegurança e a incerteza, desestimula o cidadão e os fazem
perder lugar na sociedade de consumo.
Ao se verem sem emprego, sem
condições financeiras para comer, cuidar da saúde e ter uma residência fixa, muitos
vão procurar abrigo nas ruas. De acordo com Costa (2005, p. 3) a população em
situação de rua é um
Grupo populacional
heterogêneo, composto por pessoas com diferentes realidades, mas que têm em
comum a condição de pobreza absoluta e a falta de pertencimento a sociedade
formal. São homens, mulheres, jovens, famílias inteiras, grupos, que têm em sua
trajetória a referência de ter realizado alguma atividade laboral, que foi
importante na constituição de suas identidades. Com o tempo, algum infortúnio
atingiu suas vidas, seja a perda do emprego, seja o rompimento de algum laço
afetivo, fazendo com que aos poucos fossem perdendo a perspectiva de projeto de
vida, passando a utilizar o espaço da rua como sobrevivência e moradia.
O viver nas ruas não é uma situação
somente da atualidade, mas teve impulso e destaque após o surgimento das
grandes cidades industriais (Bursztyn, 1997), com isso o êxodo rural trouxe
muitos cidadãos e cidadãs para os centros urbanos em busca de um emprego e moradia.
O que poucos sabiam é que as estruturas das cidades não estavam aptas para
receber os imigrantes e muito menos havia emprego para todos e as políticas
sociais não estavam preocupadas com a vida da população, com isso muitos
sobreviveram com subempregos como catadores de latinhas e outros resíduos,
ganhando o insuficiente para o sustento e vivendo em abrigos ou albergues.
A rua como refugio para
muitos cidadãos e cidadãs possuem algumas considerações levantadas por Rosa
(2005, p. 42)
A rua pode ter pelo
menos dois sentidos: o de se constituir num abrigo para os que, sem recursos
dormem circunstancialmente sob marquises de lojas, viadutos ou bancos de jardim
ou pode constituir-se em um modo de vida, para os que já têm na rua seu habitat
e que estabelecem com ela uma complexa rede de relações. Seria possível
identificar situações diferentes em relação a permanência na rua: ficar na rua
– circunstancialmente; estar na rua – recentemente; e ser da rua –
permanentemente. [...] Essas situações podem ser dispostas num continuum, tendo
como referência o tempo da rua; a proporção que aumenta o tempo, se torna
estável a condição do morador
Quando os cidadãos e cidadãs
transformam a rua em meio de sobrevivência, passam a ter relações com outras
pessoas que vivem em situação de rua. As estratégias por meio dessas relações
consistem em conseguir alguns bicos para levantar algum rendimento, lugares que
distribuam comida, roupas, objetos de higiene pessoal, banhos, e dormitórios.
Nas décadas de 70 e 80 a
economia brasileira passava por difíceis conjunturas, aumentando assim o
desemprego e a precariedade do trabalho. Rosa (2005, p. 36) verifica alguns
processos ocorridos na expansão econômica no final da década de 70 ao citar
Kowarick (1979: 24-6)
um processo
dilapidador [...] na medida em que tem depredado parte da mão-de-obra, que leva
adiante processos produtivos. Assim, frise-se, de um lado, que no período por
muitos denominados de ‘milagre brasileiro’, os salários mínimo e mediano dos
trabalhadores urbanos decresceram em termos reais em contraste do que ocorreu
em períodos anteriores. [...] Para levar a cabo um modelo de crescimento que
acirrou a deteriorização dos níveis de vida, tornou-se necessário desarticular
e reprimir as iniciativas dos múltiplos e numerosos grupos que foram alijados
dos benefícios do desenvolvimento.
Ao perderem o vínculo com o trabalho,
muitos acabam também perdendo vínculos estáveis com a família e com relações
sociais, tornando-se vulneráveis e expondo as condições precárias de vida,
estando à mercê da violência nas ruas e as influencias das drogas. De acordo
com Bursztyn (1997) muitos sobrevivem por meio de acesso precário a mecanismos
públicos, como a assistência social e os serviços de saúde, também são ajudados
por meio da caridade privada, a filantropia ou a entidades assistenciais
religiosas.
A
realidade brasileira nunca apresentou uma política social forte,
transformadora, tornando gritante a relação do país com a pobreza e a
desigualdade. Ao falar sobre pobreza, Pereira (2008, p. 28) coloca que “pobreza
absoluta, portanto, pode ser definida pela não satisfação das necessidades
básicas universais e objetivas.” Também chama a atenção para o uso equivocado
de alguns sinônimos para pobreza, como é o caso a desigualdade social.
Tal conceito está
diretamente relacionado à distribuição desigual da renda e da riqueza
socialmente produzida [...] pode-se ter desigualdade sem ter pobreza (pobreza
relativa): um aumento de renda nas camadas mais pobres pode melhorar a situação
de pobreza extrema, sem, no entanto, modificar a situação de desigual acesso e
usufruto de bens e serviços existentes numa dada sociedade (desigualdade
social). (idem 2008, p. 28)
A desigualdade sempre estará presente
no meio social, mas a pobreza é algo que pode reverter por meio de ações políticas
contra ela. Outro termo também visto como sinônimo da pobreza é a Exclusão
Social que de acordo com Nascimento (1997) pelo viés sociológico o termo
refere-se a um processo social de não reconhecimento do outro, resultando em
uma rede de rupturas dos vínculos sociais, o conceito também se aproxima da
discriminação sexual, racial, religiosa, dentre outras.
Alles
(2010, p.60) apresenta em sua pesquisa que “certas pessoas não conseguem
enxergar este outro excluído como sendo um ser humano semelhante a elas. Assim,
podem-se encontrar olhares e atitudes sobre o próximo que resultam em processos
de dessemelhança ou de desumanização.” Quando há uma diferenciação entre
pessoas de uma mesma sociedade, ações discriminatórias, excludentes e outras
com cargas negativas, tornam-se recorrentes e com isso algumas práticas sociais
são passíveis até de uma eliminação física (Bursztyn, 1997).
Ao
estudar as pessoas em situação de rua percebe-se como é delicada a relação dos
cidadãos e das cidadãs com o restante da sociedade, também é latente a condição
de pobreza, e o tratamento discriminatório. O poder público está ciente da
problemática social vivida por muitos, mas pouco é feito. Geralmente atuam de
uma forma assistencialista, mais voltada para a reeducação por meio de um
processo pedagógico, educando os cidadãos para saberem conviver em sociedade.
Para muitos o assistencialismo é uma alternativa viável e a melhor forma de
retirar as pessoas que vivem nas ruas, mas, é preciso ter-se uma visão
detalhista sobre estes métodos, pois em muitos casos o processo de ‘auxílio’
pode ampliar a desigualdade e trazer uma baixa estima aos cidadãos e cidadãs ao
serem comparados como seres ‘inferiores’ aos demais que possuem um emprego, uma
residência fixa e estão contribuindo explicitamente com a economia do país.
Giorgetti (2007) em seu
livro Poder e contrapoder apresentam
alguns projetos de lei na cidade de São Paulo que tendem a ter uma preocupação
humanitária em relação à população de rua, reconhecendo-os como cidadãos que
possuem direitos e devem ser respeitados, visando o comprometimento do poder
público para com os ‘moradores de rua’ garantindo-lhes o exercício da cidadania
plena, por outro lado, também apresenta alguns projetos que não os garantem a
cidadania plena e o tratamento institucional é medíocre.
Os
projetos de lei que visam à cidadania plena na cidade de São Paulo procuraram
sistematizar uma política de atendimento as pessoas que vivem em situação de
rua, apresentando propostas assistenciais de recolhimento que não postulam a
inserção na sociedade por meio de uma ‘reeducação’, mas satisfazendo as
necessidades básicas, também estabelecem diretrizes para o atendimento
obrigatório de prestação de serviço pelo poder público, colocando os cidadãos e
cidadãs em situação de rua como objetivos nas políticas públicas, apresentam
alternativas de moradia como minialbergues, auxílio-moradia, alimentação e
contratam cidadãos para trabalhos em obras da prefeitura.
Muitos
destes projetos encontraram resistências para serem desenvolvidos, também
precisam ser reformulados em alguns aspectos, principalmente em estudos mais
detalhados sobre as necessidades reais da população em situação de rua, pois
podem se tornar projetos, como alguns existentes, que dão uma cidadania
relativa, ou seja, apaziguam a problemática social reforçando a sobrevivência
nas ruas.
Para muitos, inclusive o
poder público a solução encontra-se em algumas ações superficiais como: comprar
os materiais recicláveis catados pelos cidadãos ou cidadãs em situação de rua
por um preço baixo, simbólico, distribuir papelões para aumentarem a mísera
renda, ou permitir a moradia embaixo de viadutos ou em albergues com péssimas
condições. É sábio que estas ações não estão perto da solução, e que a possível
solução seria aprimorar as condições de
trabalho e não explorá-las, melhorar as condições dos abrigos e do atendimento
para com estes cidadãos.
Muitos são os problemas em
volta dos cidadãos e cidadãs em situação de rua, exigem-se ainda muitos estudos
para que se possa chegar às possíveis soluções, dentre elas as formas de
tratamento direcionadas as pessoas que vivem em situação de rua. Vários são os
termos designados, em sua maioria com carga semântica negativa, estigmatizada,
contribuindo mais ainda para o processo de desigualdade social.
Para que se possa ter uma
dimensão dos termos utilizados para designar as pessoas que vivem em situação
de rua é só ler um jornal, revista ou apenas conversar sobre a problemática.
Rosa (2005, p. 49) coloca que nas décadas de 70, 80 e 90
usou-se uma variada
nomenclatura carregada de significados para designar pessoas que vivem em ruas,
praças, marquises, em logradouros públicos, em geral, e/ou nos chamados
albergues, que, por sua vez, expressa não só as representações que a sociedade
tem sobre a população, mas também a articulação com determinadas conjunturas
sociais, econômicas e político-institucionais.
As denominações são históricas e com
elas também seus significados, mas a carga negativa em seus significados vai
aumentando cada vez mais. Palavras como ‘marginalizados’, ‘indigentes’,
‘miseráveis’, ‘flagelados’, ‘sem-tetos’, ‘morador de rua’, ‘mendigo’,
‘ delinquente’, ‘catadores de papel’, ‘população de rua’, dentre outros, são os
exemplos mais recorrentes para denominar os cidadãos e cidadãs em situação de
rua.
Atualmente,
nas notícias e reportagens o termo mais utilizado é ‘morador de rua’, além de
estar no masculino genérico (Magalhães, 2006), ele transmite uma idéia de ser,
permanecer, estar e se fixar, transmitindo assim uma concepção que não há
possibilidades de reverter a situação que vive muitos cidadãos e cidadãs. Em
Rosa (2005), por meio de uma colocação do O trecheiro (1996) vê-se como a
grande imprensa aborda a situação de rua e como trata os cidadãos e cidadãs,
tratando-os sutilmente como ‘mendigos’.
Nos
textos jornalísticos não é difícil encontrar as designações ‘morador de rua’ e
‘mendigo’, ambas são recorrentes, para Giorgette (2007, p. 91)
Alterar a forma de
tratamento, de mendigo para morador de rua, não modifica a situação das pessoas
que se encontram na rua e não representa nenhum avanço no tratamento concedido
a elas pela sociedade. Embora contribua para a diminuição da estigmatização
dessa categoria, esse termo é passível de críticas: em primeiro lugar, a
utilização de um termo não pode ser imposta pelos poderes públicos, porque
representa a evolução de uma língua. A nosso ver, a dificuldade está em
reconhecer que os termos vão sendo gradativamente incorporados e adaptados ao
vocabulário, conforme se transforma os hábitos e a cultura de uma sociedade. Em
segundo lugar, de nada serve mudar um termo que designa um comportamento social
considerado problemático pela sociedade se não há políticas sociais adequadas
que visem solucioná-lo.
Como também é proposto pela autora é
preciso investigar, ampliar o conhecimento em torno da problemática social para
poder assim utilizar um termo mais propicio, viável e que não traga tanta carga
pejorativa, desigual e excludente. Pois tratar como ‘mendigo’, ‘morador de
rua’, ‘indigente’, ‘miseráveis’, ‘flagelados’ é desconhecer a diversidade de
grupos que existem nas ruas, é passar por cima das várias razões que levaram
cidadãos e cidadãs a estarem em situação de rua, limitando assim a capacidade
humana de compreender a diversidade e heterogeneidade das situações vividas por
muitos.
O
termo utilizado no presente trabalho, para designar as pessoas em situação de
rua, como já mencionado, foi cidadão e cidadã em situação de rua, que de acordo
com (Bessa, 2009) pretender ser mais que uma simples ‘opção’, pois agrega
sentimentos mais humanos em relação a outros seres humanos. Cidadão ou cidadã
distingue dos termos ‘morador de rua’ ou ‘mendigo’, primeiramente porque o
termo apresenta valores de inserção, de vê as pessoas como parte da sociedade,
já o complemento ‘situação de rua’ apresenta uma situação passageira, um estado
que pode ser revertido, modificado, transformado, ou seja, o termo até o
momento desta pesquisa será o mais viável, no intuito de contribuir para
reflexões a cerca da problemática social e possibilitar transformações nas
práticas sociais.
Referências
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